terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Saúde - Como a substância tóxica das cervejas Belorizontina atua no corpo das vítimas

A intoxicação pelos etilenoglicóis presentes em lotes de cervejas da marca Belorizontina, entre outras, todas produzidas pela cervejaria Backer, localizada em Minas Gerais, ainda assusta os moradores de diferentes cidades brasileiras. Até 17 de janeiro, quatro mortes já haviam sido confirmadas e havia 18 notificações de pacientes com suspeitas da chamada "síndrome nefroneural".

A patologia afeta o intestino, os rins e o sistema nervoso do indivíduo de maneira preocupante. Neste material, o Dr. Saulo Nardy, membro da Academia Brasileira de Neurologia (ABN) e do corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein, explica detalhadamente o que é o etilenoglicol e como ele atua no organismo da pessoa intoxicada.

Segundo o neurologista, ambos os subtipos da substância encontradas na cerveja (monoetilenoglicol e o dietilenoglicol) são incolores, inodoros e têm um sabor levemente adocicado. Os indivíduos que os ingeriram, portanto, talvez tenham sentido a cerveja um pouco mais doce que o normal, mas nada que pudesse chamar a atenção.

Na prática, o etilenoglicol é usado como anticongelante em processos industriais, além de estar presente em solventes para corante, limpadores de parabrisa, pastas de polimento para sapato e alguns tipos de lubrificantes.

“Embora a substância seja um álcool, não se assemelha ao etanol, consumível e presente em bebidas como a cerveja. Simplesmente não era para estar ali”, ressalta Saulo.

Uma vez ingerida, a intoxicação se dá via gastrointestinal. No intestino, onde a substância é absorvida, pode provocar queimação, náusea, vômito e diarreia. Na sequência, leva a um quadro mais grave de embriaguez: a pessoa fica muito lenta, desequilibrada, com a fala amolecida e muita tontura. Em alguns casos, já nessa fase, inicia-se um estado de torpor. Tudo isso em até 12 horas após o consumo.

Feita a primeira metabolização no fígado, o etilenoglicol se transforma em oxalato e passa a agir com maior agressividade, acarretando, em menos de 24 horas, à insuficiência renal pela formação de cristais que atacam o rim. 

Aproximadamente 72 horas depois, os nervos e o cérebro também viram alvo, o que pode resultar em paralisia facial, tetraparesia (perda movimento dos braços e pernas), embaçamento ou perda da visão, entre outras graves consequências.

Por ser tratar de uma síndrome com tamanha rapidez e de difícil identificação em casos que a ingestão não é sabida, o tratamento é um desafio para os médicos. Saulo explica que técnicas como a lavagem gástrica devem ser aplicadas se a pessoa for atendida logo após o consumo, para reduzir a absorção pelo intestino.

Outra possibilidade é a ingestão endovenosa de etanol, pois, enquanto está ocupado com sua metabolização, o fígado não consegue processar o etilenoglicol rapidamente, dando mais tempo para a reação do organismo e para a adoção de outras medidas, como a hemodiálise. “Parece um contrassenso, mas, basicamente, ‘embriagar’ de propósito a pessoa no período de algumas horas após a intoxicação pode ser útil”, comenta.

No caso dos pacientes mineiros, que se dirigiram ao hospital horas depois do consumo da cerveja, a equipe médica fez uso de métodos para combater a acidose metabólica do corpo, além de hemodiálise.

“Como esse tipo de intoxicação é extremamente raro, é compreensível a demora para descobrir o que motivava os casos. Infelizmente, ninguém sabia do que se tratava e os pacientes chegavam ao hospital depois de várias horas do consumo, dificultando o tratamento”, finaliza Saulo.

sábado, 4 de janeiro de 2020

Por que Shades of Blue é uma série ruim?

Ray Liota, Jennifer Lopez (JLO) e Warren Kole são alguns dos nomes que encabeçam o elenco da série policial Shades of Blue, que teve 3 temporadas (estou assistindo neste momento esta última). Mesmo sem terminar de vê-la, resolvi escrever este post para expressar minha avaliação sobre a trama. Aviso: este texto contém spoilers

Sou fã de séries policiais e minha conclusão sobre Shades of Blue: ela é muito ruim. O gancho da trama é a policial Harlee Santos (JLO), uma detetive sexy de Nova Iorque e mãe solteira, que faz parte de um grupo fechado de policiais corruptos, que fazem de tudo: matam, roubam, escondem provas, praticam roubos a comerciantes, roubam de bandidos, praticam extorsões, contaminam as cenas dos crimes e brigam com outros policiais corruptos  ao longo dos episódios. 




A série é ruim, porque ficaram de fora alguns elementos principais que outros seriados policiais trazem:

- Falta equipe de CSI e legistas: nenhum dos corpos passam por avaliação dos legistas que identificam a causa mortis, as cenas dos crimes não são periciadas. Ou seja, os investigadores corruptos manipulam tudo e fica por isso mesmo;

- Câmeras do sistema de vigilância: os policiais da trama praticam os crimes e extorsões a luz do dia ou ànoite e nenhuma câmera de uma cidade tão vigiada como Nova Iorque grava as cenas ou é procurada pelos investigadores, como costumamos ver em outras seriados; 

- Imprensa não cobre os casos: jornalistas não fazem parte do elenco e os crimes são "praticados" pelos policiais, mortes acobertadas e realizadas sem qualquer notícia nos jornais. Mesmo quando os policiais são levados para hospitais ou aparecem feridos no trabalho ninguém desconfia. O personagem de Ray Liotta tem um filho jornalista, mas ele nada investiga.  

- O sistema de Justiça também foi excluído do enredo: o único promotor virou namorado de Harlee (JLO), mas foi assassinado no começo da terceira temporada. De resto, os casos também não são avaliados pelos promotores. Nem relatório os policiais fazem!

- Falta de chefia do distrito: nenhum supervisor acompanha os casos, os depoimentos de criminosos ou testemunhas não são gravados. 

Quando a gente compara Shades of Blue com a longeva série Law & Order - SVU, é possível entender porque a segunda está há tanto tempo no ar, pois os roteiros possuem muito mais consistência.

Três temporadas para esta série foram mais do que suficientes.