sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Crônica: Uma saudade e um violão


Sentado em frente à porta de casa, aquele rapaz dedilhava seu violão. O banquinho feito de caixote de feira bamboleava naquele chão irregular de terra batida e poeira. Final de tarde. O sol descia no horizonte longínquo, um calor abafado o envolvia, uma tensão pairava no ambiente. O ar estava quase irrespirável, pesado, denso. Qual música ousava sair das cordas daquele violão?        

“Fizemos a última viagem, foi lá pro sertão de Goiás, fui eu e o Chico Mineiro também foi o capataz”. A melodia triste e chorosa parecia não combinar com o jovem. Descompasso. Ele exibia um topetinho estiloso muito mais alinhado com o visual de artistas como Luan Santana ou Gusttavo Lima, as estrelas brasileiras do sertanejo moderno. Calça jeans justa, sapatênis barato e camiseta de R$ 15,00.

Mas, apesar de seus 20 e poucos anos, ele estava submerso em muita nostalgia. Saudade da família que ficará em Mato Grosso, do gado, dos rios caudalosos e das aves em seus voos rasantes. A fazenda era seu lugar, seu ninho, o lugar no qual se sentia acolhido – talvez a mesma sensação similar de conforto de quando estava no ventre quente e úmido de sua mãe. Precisava voltar para casa!

Olhou ao redor de onde estava e só via barracos, nada de verde, nada de liberdade. O barulho era intenso, pois os moradores regressavam para suas habitações. Crianças brincavam, corriam com seus chinelos a saírem dos pés. A poucos metros dele, uma mocinha com cerca de 16 anos estava com o rosto enterrado no celular, a teclar e teclar. Cabelos longos e presos numa trança, um vestido curto e estampado, alguns quilos a mais e poucas espinhas na face. Era a maneira que ela encontrara para passar o tempo, que seguia lento. Seria este telefone mais formidável que nadar e se refrescar nas águas do Pantanal?

Sua irmã e seu cunhado chegariam em breve também. Aceitara o chamado deles para vir encontrar um trabalho em São Paulo, mas estava arrependido. Seis meses depois ainda estava perambulando pelas ruas em busca de uma oportunidade melhor. Era açougueiro. Já se empregara em dois açougues no bairro, mas os patrões quiseram dar-lhe um golpe na hora do pagamento, apesar da carne boa que podia trazer para sua família uma vez por semana. Quando o salário não vem, não é possível fazer planos. 

Sua vontade era a de afogar as mágoas numa cachaça. Entretanto, com qual dinheiro pagar a branquinha? Continuaria tocando seu violão, uma das poucas coisas que o alegrava. “Foi bonito, foi, foi intenso foi, verdadeiro, mas sincero...”, era, agora, a melodia que ecoava do seu instrumento. Cantar era o remédio para sua amargura. A nova música chamou a atenção da garota, que tirou os olhos do visor e sorriu para ele, que finalmente sentiu-se mais empolgado. Abriram-se pequenas rachaduras na capa de tristeza que o envolvia. Uma aragem que trazia o cheiro de chuva começara. Seriam novos ventos a soprar-lhe de volta a esperança?    

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