terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Crônica: Companheiro GPS


Uma cidade grande revela suas estranhezas à medida que resolvemos conhecê-la. Ela se desvenda aos poucos para seus moradores e visitantes, especialmente quando a gente se aventura pelos seus arredores, entre uma esquina e outra. Para que estas revelações se apresentem, é bom prestar atenção aos detalhes e não se distrair com pensamentos devaneantes. Essa exploração da metrópole nem sempre é espontânea. Às vezes pode ser um evento ou uma reunião de trabalho que nos leva a sair do roteiro conhecido. E...lá vamos nós!  

O rumo é incerto, especialmente quando as vias para se chegar ao destino são, na maior parte das vezes, desconhecidas. Felizmente, existem as tecnologias que contribuem para nos orientar na aventura, em especial o GPS que, em princípio, veio para nos auxiliar quando cruzamos a metrópole de um lado a outro. Mas, em alguns casos, também ajuda a nos perder.

Pegar o caminho da esquerda ou da direita? O que foi mesmo que a voz falou? Não entendi a orientação! Resultado: desespero! Discuto com o equipamento, mas ele não entende e não responde às blasfemações. São os novos companheiros da vida moderna. Com quem brigamos e debatemos. Mas, nem adianta fazer beicinho ou choramingar, pois trata-se de um equipamento frio e calculista.

Na aventura urbana, rodamos por avenidas esburacadas e ondulantes. Disputamos espaços com ônibus que parecem enormes centopeias a sacolejar. E, quando pensamos estar próximos do ponto de chegada, somos surpreendidos por uma rua sem saída, ornamentada por ipês roxos e sacos de lixo.

A pressa e a ansiedade precisam ser controladas para permitir a manobra na ruela estreita que nos colocará de novo no curso desejado. Essencial é encontrar a saída do labirinto, mesmo se as ruas estiverem escuras e que ladeiras íngremes se descortinem à nossa frente.

Se nos sentimos perdidos e a fala do GPS é incompreensível, o jeito ainda é apelar para um cidadão no ponto de ônibus, para um motorista de táxi ou para o motoboy.  Nada como o jeitinho tradicional para conquistarmos o alvo, chegar ao destino. Nenhuma pedra irá se interpor ao objetivo, mesmo que seja uma daquelas enormes que sinalizam perigosos buracos no asfalto.

Hoje, subi a avenida Rebouças, que fica praticamente intransitável no horário de pico, depois do túnel que foi construído no cruzamento com a Faria Lima.  Lojas decadentes de ambos os lados do caminho e insistentes faixas de “Aluga-se” nas fachadas dos imóveis que se sucedem à medida que desviamos o olhar para a paisagem.  Aliás, por que será que a concessionária de automóveis fechou? E por que a loja de móveis também cerrou as portas? Parece que estão nascendo quarteirões-fantasma.

Preciso encontrar a Rua Cristiano Viana. Vou virar levemente à esquerda daqui a pouco, como disse o GPS, e espero não me perder em nenhuma encruzilhada. Mesmo sem saber ao certo o rumo e apesar do atraso, vou seguindo. Mas, tem um outro obstáculo: a chuva torrencial que atrapalha a visão. É quase como se eu dirigisse às cegas. Reduzo a velocidade, uma vontade de parar me domina. Não dá para ler as placas nos postes. E o GPS continua com suas orientações. Enfim, decido desligá-lo. Devo continuar seguindo em frente? Digo para mim mesma, mas não escuto uma resposta.

Assusto-me com um jato de água que um outro veículo atirou em meu para-brisa. Poças! A chuva ficou mais fina. No ponto de ônibus, as pessoas se parecem com cachorros molhados. Semblantes tristes por causa da roupa úmida e dos transportes lotados. Disfarço meu olhar e decido voltar a ouvir o GPS. Hora de virar finalmente à esquerda para o retorno. Talvez seja tarde demais para o compromisso agendado.  Mas, sem sofrimento. Espero que a outra pessoa também tenha aguentado o aguaceiro e o trânsito. Vou saber daqui a pouco. Faltam apenas 100 metros para o endereço, diz o GPS. Avanço centímetro a centímetro para não passar do local.  Finalmente, eu cheguei ao destino, querido companheiro. Converso com você na volta!

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