quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Um canto sedutor


Aquele canto o chamava. Desde criança, quando ouvia aquele som, algo dentro dele tremia, queria seguir o ardiloso convite, que o tocava profundamente na alma.

Por anos, teve que se conter e controlar os seus desejos. Pensava nos pais, na família que o censuraria. Mas, agora, ninguém mais iria segurá-lo: Harley tinha a sua motocicleta. Comprada à prestação, mas não importava.

Ele poderia sair livremente pelas avenidas de São Paulo e se unir à tribo de motociclistas. Amor, paixão, loucura e liberdade. Novos horizontes para sua vida, sem tédio, sem monotonia.

A primeira coisa que Harley fez foi mostrar sua moto aos amigos. Exibir sua conquista. Os jovens vibraram junto com ele e aceleraram pelo bairro, incomodando os vizinhos. Mas, quem se importava?

Sonhos se realizando. A garota cobiçada aceitou sair com ele para comer um cachorro-quente. Finalmente, conseguiu pegar a princesinha. Sentia-se um herói, nada temia. Seu sex appeal tinha aumentado entre as garotas do bairro.  
      

Nos dias seguintes, conseguiu um trabalho de motoboy. Poderia explorar a cidade e ainda ganhar seu dinheirinho – precisava pagar a prestação. Rebouças, Consolação, Ibirapuera, Santo Amaro, Radial Leste, Cardeal Arcoverde, ruas e mais ruas para explorar.

Emoção é voar. Passar pelo semáforo quando já está vermelho. Ziguezaguear pelos corredores. Brigar com os motoristas, conversar com os taxistas. É preciso ser rápido. Aquele canto que o chamava quando criança tocava cada vez mais alto. Pulsando. Acelerando. 

Harley viu que a cidade tem milhões de pessoas iguais a ele, cuja existência vai sendo tecida em torno do ronco do motor de uma motocicleta. Enfileiravam-se na hora do rush, enquanto esperavam o sinal abrir. Contagem regressiva...3, 2 1: verde. Lá iam todos com suas motos e seus capacetes coloridos, envoltos no ar poluído.

Desacelerar? Só quando um desconhecido é visto caído no asfalto. Todos viram amigos e feras em defesa do motociclista que espera o serviço de resgate, deitado no meio da Marginal. Cadê o culpado pela queda?

Os pais de Harley rezam todo dia para que Deus proteja seu filho a rodar pelo trânsito de São Paulo. Eles e outros milhares de mães e pais que sabem que a sedutora canção invade o cérebro e entorpece a razão. O que pensa Harley?

Riscos? São fonte de adrenalina. Lama? Se transforma num manto de proteção. Sonho? O dia no qual poderá comprar a sua Harley Davidson e curtir a sua Rota 66.  

Harley: seu nome tinha sido escolhido em homenagem ao cometa, mas estava totalmente associado ao seu estilo de vida. Mas, por enquanto, o sonho de viver a aventura estradeira era apenas um sonho e nada abalaria sua alegria, mesmo que tivesse de disputar cada centímetro de estrada com outras motos, carros, caminhões, ônibus...  

“Harley comprou a sua moto e passou a se sentir total, sentir total. Harley e sua moto, mas que união feliz”. Até quando?

    

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