quinta-feira, 31 de julho de 2014

Ser & Viver: Na chapa

A cidade vai aos poucos acordando. O sol desponta no horizonte devagar, naquela manhã de inverno. Ele não tem pressa e respeita cada minuto do passar das horas. Quem tem pressa são as pessoas. A vida na grande metrópole pede urgência,  velocidade. Eu nem precisava de alarme para despertar. Todo dia seguia o ritual: tomar banho, escovar os dentes e escolher a roupa de trabalho. 

Para aquele dia frio, uma calça jeans, uma camisa branca, a bota nova e o casaco vermelho. Um lenço florido no pescoço para dar o toque final de elegância e algumas gotas de perfume na nuca, que criam uma aura de leveza e romance.

Hora de pegar o metrô lotado e me transportar até o escritório. Mas, antes da jornada começar,  eu preciso parar na padaria e comer um delicioso pão na chapa com café com leite - o famoso pingado. Chegar no balcão,  falar bem alto para o balconista escutar o pedido, pois o espremedor de laranja disputa a atenção. 

Engraçado como o pão na chapa é democrático, quase uma unanimidade,  como o pão de queijo.  Naquele lugar, mais meia dúzia de pessoas estavam se regalando com aquela iguaria. Concentrados no café da manhã, enquanto os pensamentos divagavam. 

Torrado e levemente gorduroso,  bom é escutar os estalidos que surgem a cada mordida. Depois, sorver o gole de café, que ajuda a esquentar o ânimo.  Gula. Queria comer mais um pão, mas o regime não permite. 

Sabia que logo mais, lá na casa do meu pai,  ele também estaria comendo seu pão na chapa, feito com pãozinho amanhecido. Sabia que no boteco da esquina, mais uma dezena de trabalhadores estariam a saborear o seu. Um ritual diário que fascina pela sua simplicidade. 


Já debati com colegas do trabalho sobre a estranheza do preço de um pão na chapa, caro na padaria gourmet, acessível no bar localizado no centro da cidade.  O valor acompanha o perfil do consumidor.  O que fazer? Naquele exato momento, nada. Não era a hora de me rebelar com a despesa. Vou anotar na agenda para escrever uma crônica sobre o assunto. Agora, me restava pagar a conta e sair. Apressadamente, tirei as migalhas que ficaram no lenço e no casaco. Os compromissos me esperavam. Bom dia!


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